Essa semana comecei finalmente a ler um livro que estava na minha lista há um tempo, mas que não conseguia brechas para iniciar a leitura. Do Jonathan Crary, 24/7 Capitalismo tardio e os fins do sono. Sobre capitalismo e neoliberalismo a trajetória acadêmica me deu base, tenho um bom ponto de partida, mas talvez o livro de Crary me chamava atenção porque, para além de saber da estrutura neoliberal, eu aguardava alguma subjetividade que pudesse me explicar porque temos dormido tão pouco? Enlouquecidos com tudo que precisa ser entregue.
A vida não é útil, já dizia Krenak. Li Ailton Krenak pela primeira vez quando eu fazia o doutorado sanduíche em Berlim, na Alemanha. Aproveitei o recesso de final de ano e o Kindle Scribe que eu havia me dado de presente de Natal naquele primeiro Natal em que passei longe da minha família em um frio de aprox -7°C. Fui ler Krenak pra esquentar o coração e me deparei com uma revolução. Finalizei a leitura com uma consciência alargada de quem somos enquanto seres que habitamos esse lugar. Parecia que nunca mais voltaria pra um lugar de futilidades, de dar sentido à vida pela lógica material porque, afinal, estamos fazendo de tudo, menos existir plenamente conscientes de quem nós somos.
Voltei pra Macaé depois de quase sete meses morando na Europa, com muita certeza de que não seria engolida pela lógica da cidade de 246 mil habitantes com ares conservadores demais para o mundo que eu tinha descoberto. Tudo muito bem trabalhado na minha terapia, eu não seria engolida novamente – mas fui!
Deparei-me com uma certa obviedade: é possível escapar dos caminhos que o nosso universo circundante apresenta?
É possível viver uma vida fora da perspectiva utilitarista do capital? As palavras de Crary ao início do 24/7 Capitalismo Tardio e os fins do sono me fazem parecer que não.
Mas ainda assim, faz-se necessário viver sobre algum tipo de utopia pra alimentar à alma. É preciso sempre voltar à Krenak!


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